
O tema que tinha escolhido para esta semana navegava na área da música mas, após ter conhecimento do encerramento da Livraria Byblos, a maior existente no nosso país, após um ano de actividade, decidi falar um pouco deste universo de que tanto gosto, que são os livros e as livrarias.
Desde tenra idade comecei a frequentar livrarias levado pela minha mãe e avó, ao mesmo tempo que devorava na livraria dos meus padrinhos os célebres livros de banda desenhada, assim como tudo o que apanhava, quando por lá se começaram a vender os livros de bolso, surgidos em finais de sessenta.
A livraria foi um daqueles espaços em que se descobria autores, mas também um lugar em que era possível fazer amizades, incluindo o próprio livreiro, que nos recomendava livros e nos abria os horizontes. Guardo na memória com saudade a Livraria Opinião, dirigida pelo Hipólito Clemente, mesmo ali ao lado da Cervejaria Trindade, hoje pertencente aos Livros Cotovia. Por ali descobri os surrealistas e muito mais, porque as pequenas edições de autor tinham sempre um lugar disponível, para sorrirem ao visitante. Depois eram as descobertas que se faziam sempre em maravilhosas conversas que guardo na memória para sempre, porque quem se encontrava por detrás do balcão tratava os livros por tu e também era um leitor apaixonado.
Hoje, ao entramos numa livraria, quase sempre a resposta é-nos dada pelo computador e a sua famosa base de dados. E a frieza com que somos atendidos muitas vezes, convida-nos a desistir rápidamente de fazer mais alguma pergunta e, claro está, ficamos quase sempre restringidos às novidades editoriais. Os chamados fundos de catálogo não têm direito a habitarem as livrarias, eles dormem sossegados nos Armazéns e só conhecem a luz do dia para conviver com os leitores quando chega a Feira do Livro. Ainda recentemente Alexandra Lucas Coelho se referia a isso numa crónica do jornal “O Público”, a propósito de um livro de E. M. Forster dedicado à famosa cidade de Alexandria, que serviu de inspiração a escritores como Durrell ou Cavafis.
Quando nos apaixonamos pela escrita de um escritor temos o desejo de conhecer a totalidade da sua obra, mas muitas vezes é quase impossível descobrir as edições mais antigas, especialmente se ele for um habitante não dado às famosas novidades e oficialmente faça parte do número daqueles que partiram.
Por outro lado, a chamada crítica literária nos jornais debruça-se principalmente sobre as novidades do mercado, esquecendo-se desses livros que já viram a luz dos dias em anos passados e que se encontram esquecidos, umas vezes nas estantes, outras nos armazéns das editoras. Resta-nos assim essa aventura que se chama Alfarrabistas, onde muitas vezes descobrimos aqueles livros que ouvimos falar aos nossos pais e avós, mas que nunca nos chegaram às mãos e quando finalmente os encontramos meio perdidos nesse sótão dos Alfarrabistas é na verdade o prazer da leitura que ilumina as nossas almas.
Quando entrava na Byblos recordava-me sempre da Barnes & Nobles de Santa Mónica, pelo espaço e pelo número de títulos disponíveis, incluindo os chamados “fundos de catálogo”. Esperamos que o fecho seja provisório e que aquele espaço se mantenha um amigo fiel da literatura. E, como não podia deixar de ser, a memória leva-me a essa época em que a censura existia e os livros eram apreendidos, ainda me lembro desses tempos (início dos anos setenta) em que lia no café “O Dinossauro Excelentíssimo” do José Cardoso Pires com desenhos do Júlio Pomar, devidamente forrado, para ninguém ver a capa ou “Os Subterrâneos da Liberdade” do Jorge Amado, que mão amiga tinha emprestado à minha mãe. Nessa época havia uns agentes especialmente destacados para a apreensão desses livros subversivos, que invadiam as livrarias e tratavam de confiscar essas perigosas armas que são os livros. A maioria das vezes essa acção era concertada, invadindo a policia as livrarias de uma determinada zona/cidade à mesma hora, como tive conhecimento um dia ao debruçar-me sobre os autos de apreensão, no qual figuravam os títulos e quantidades respectivas, ficando o livreiro/editora com uma cópia. Felizmente esses temas fazem parte de um passado já longínquo, mas nunca é demais lembrar a importância que o livro e os escritores possuem, ao oferecerem novos horizontes aos seus leitores.
Ler faz parte da vida e um universo sem livros corresponde inevitavelmente a uma passagem cinzenta por este planeta azul e quando nos lembramos desses copistas da Idade Média que ofereceram o seu labor às gerações vindouras, tantas vezes à luz das velas, queimando a vista para que a cultura não se perdesse, só poderemos olhar os livros com toda a ternura do mundo, fazendo deles o nosso melhor amigo, porque quando regressamos à leitura de um livro amado, estamos perante esse reencontro, que tantas vezes nos transforma o olhar que temos, do mundo em que vivemos.
Imagem: Interior da Livraria City Lights em São Francisco, o mais famoso templo da literatura Beatnick, ao seu lado fica o famoso Café/bar Vesúvio e entre as duas a rua Jack Kerouac, com o famoso mural dedicado a Baudelaire. Uma visita que recomendamos aos apaixonados por Livrarias.
Rui Luís Lima