terça-feira, 28 de Abril de 2009

OS TEXTOS DE "O TEMPO REDESCOBERTO"

SÃO PUBLICADOS EM
"PAIXÕES E DESEJOS".

quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Feliz Ano Novo / Happy New Year


quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

O Olhar das Palavras


Quando Max Broad chegou ao café, reparou numa rapariga debruçada sobre uma mesa, situada na zona mais escura da sala, que escrevia algo em páginas soltas, mas a sua atenção rapidamente foi dirigida para alguém que amigavelmente lhe tocara no ombro. Era Franz, acabado de chegar e com ele Ottla, bela e sorridente. O chá foi servido e o tema da conversa foi inevitavelmente Felice Bauer.

No entanto, o olhar de Max por vezes regressava à misteriosa dama, meio escondida no fundo do salão, até que uma carruagem parou em frente do café e deixou sair duas crianças acompanhadas por uma senhora. Mal entraram no interior do café, as duas crianças correram na direcção da dama misteriosa e uma delas gritou mamã, enquanto a outra já agarrada às saias da mãe, sorria mostrando uma pequena boneca, que segurava com a mão direita. Passados minutos, aquele quarteto desconhecido da famosa tertúlia, abandonou o local e dirigiu-se para a carruagem, que as aguardava.

Franz que continuava a falar do seu amor com a irmã, não reparou que Max se tinha levantado e quando se virou na sua direcção, viu-o a dirigir-se para o fundo do salão e inevitávelmente interrogou-se sobre a razão que levara o amigo a abandonar a mesa. Max Broad, num pequeno gesto quase invisível, apanhou uma folha manuscrita, caída no chão, junto da mesa, onde anteriormente se encontrava essa desconhecida dama, que de imediato o fascinara, quando os seus olhares se cruzaram por breves momentos. De joelho no chão, Max Broad apanhou a folha manuscrita e dobrando com cuidado, guardou-a no bolso do casaco, regressando ao convívio dos amigos.

Entretanto Ernest Weiss juntou-se ao grupo e a conversa ainda se tornou mais animada, mas Max estava desejoso de ler as palavras manuscritas, guardadas no bolso do casaco. E arranjando o pretexto de necessitar comprar tabaco para o cachimbo, saiu do café e dirigiu-se para o outro lado da rua, caminhando em direcção ao jardim, em busca de um banco tranquilo, longe dos olhares mundanos, para então ler as palavras manucristas por aquela mulher de olhar perturbador, mas fascinante.
O céu azul de Praga, lentamente, afastou as nuvens cinzentas e ele na sua tranquila e pequena solidão, iniciou a leitura. Lentamente o seu olhar foi percorrendo os caminhos criados pelas palavras, por vezes voltava atrás no poema, porque nem sempre era fácil decifrar todos os versos, mas continuou na sua viagem pela alma da poetisa desconhecida, até que foi desperto dessa espécie de sonho em que se encontrava, pelo bater do velho sino da Catedral.

Regressado ao café verificou que os amigos já tinham partido. Sorriu para si mesmo e seguiu para casa. Depois de jantar, sentou-se no sofá, onde se encontravam imensos escritos de Franz, ainda por ordenar, pegou neles e dirigindo-se até à secretária onde habitualmente trabalhava, deixou-os ali a repousar para, no dia seguinte, retomar o seu trabalho. Na verdade o que lhe interessava, naquele preciso momento, era olhar o caminho das palavras indicado no pequeno poema deixado no café. Analisou, uma a uma, as palavras e os seus significados e sentiu nele o olhar sedutor da paixão, aquele poema possuía no seu interior, uma nova forma de vocabulário. E, pela primeira vez, na sua vida, sentiu a necessidade de também ele escrever um poema, cujo destinatário só poderia ser essa dama sedutora e misteriosa, que nessa tarde se tinha cruzado com ele no café.
....

Muitos anos depois, ao visitar o cemitério judeu, onde Franz Kafka repousava, Max Broad sentiu o peso da memória e ao tirar um pequeno lenço do bolso para limpar as lágrimas que lhe nasciam no rosto, deixou cair no chão essa folha já amarelada pela passagem dos anos, onde vivia a poesia de uma desconhecida, que ele decidira amar.

Imagem: “O Beijo” de Klimt

Rui Luís Lima

quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Manoel de Oliveira: O Homem e o Cineasta


A minha avó sempre me disse que os grandes homens, muitas vezes, se conhecem pelos pequenos gestos “sem importância” e foi na verdade isso mesmo que um dia conheci, ao cruzar-me com Manoel de Oliveira na Cinemateca Portuguesa.

Foi num dia frio, mais concretamente nessa sexta-feira de 25 de Fevereiro de 1983. Nessa época morava muito perto desse Templo do Cinema chamado Cinemateca e todos os dias ali me encontrava, a cultivar a minha cinéfilia militante. Estávamos em pleno ciclo do Cinema Dinamarquês, o qual incluía uma retrospectiva da obra desse grande cineasta chamado Carl Dreyer. E como habitualmente ali estava por volta das 20 horas para, quando se abrisse a bilheteira às 20h30, conseguir comprar o tão desejado bilhete. Comigo estava o meu amigo Pedro e os habituais companheiros de aventura desses tempos, que diariamente ali iam amar a Sétima Arte. Mas esse dia foi diferente para todos nós, porque na fila também se encontrava Manoel de Oliveira.

Quando a porta se abriu entrámos todos para junto da bilheteira, no intuito de nos refugiarmos do frio que se fazia sentir e quando a bilheteira abriu foi de imediato colocada a placa de lotação esgotada. Ninguém queria acreditar no que estava a acontecer. Nenhum bilhete foi vendido e a lotação estava esgotada? Recordo que na época os bilhetes eram só vendidos uma hora antes da sessão se iniciar e por este motivo decidimos todos não arredar pé dali até perceber o que se passava. Entretanto começaram a chegar pessoas à bilheteira que diziam “uma palavra mágica” e recebiam em troca um bilhete.

Como não podia deixar de ser os protestos começaram a surgir, o cineasta Luís Filipe Rocha era uma das pessoas que ali se encontrava, enquanto o Manuel Cintra Ferreira, na época já conhecido como crítico, mas que ainda não trabalhava na Cinemateca, também ali estava. O meu amigo Pedro dizia às tantas que estávamos perante a angústia do cinéfilo perante o cinema, “citando” o título de um conhecido filme de Wim Wenders, “A Angústia do Guarda-Redes Perante o Penalty” / "Die Angst des Tormanns beim Elfmeter". Já Manoel de Oliveira permanecia tranquilo no meio de nós a aguardar o desfecho dos acontecimentos.

A sessão que desejávamos tanto ver era composta pela curta-metragem “Eles Apanharam a Barcaça” / “De Naaede Foergen”, uma curta-metragem muito pouco vista e a sua obra-prima “A Paixão de Joana D’Arc” / “La Passion de Jeanne D’Arc”. E para aqueles que desconhecem convém dizer que naquela época a sala era muito mais pequena do que a actual sala Félix Ribeiro.
Ao longo de uma hora assistimos atónitos ao levantamento dos bilhetes desses eleitos que foram enchendo a sala. Até que, já com a sessão a começar, surgiu o Dr. João Bénard da Costa que dirigindo-se a Manoel de Oliveira o convidou a entrar. O cineasta, depois de agradecer o convite, disse: “só entro se estas pessoas que aqui estão também entrarem”. O barulho que se fazia deu lugar a um profundo silêncio e João Bénard da Costa respondeu que havia pessoas que só tinham ido ver a curta-metragem e como havia um pequeno intervalo entre as duas películas, quando elas saíssem poderíamos entrar. Assim esperámos todos pelo final da curta-metragem na companhia de Manoel de Oliveira.

Um quarto de hora depois saíram alguns espectadores (muito poucos), entre os quais reconhecemos o César Monteiro e o António Pedro de Vasconcelos e pouco depois, essas duas dezenas de espectadores, em que eu me encontrava, entraram para a sala para verem o tão desejado filme de Dreyer. Manoel de Oliveira, tal como outros espectadores resistentes, viu os 98 minutos da película em pé, enquanto eu e o meu amigo Pedro nos sentámos no chão. Quando a sessão terminou percebemos que tínhamos acabado de ver um dos mais deslumbrantes filmes da História do Cinema.
Como a vida é feita de pequenas memórias que nos enchem a alma de ternura, aqui deixo, passados 25 anos, o meu sincero e comovido Obrigado a esse homem chamado Manoel de Oliveira que recentemente comemorou o seu centenário e cuja obra cinematográfica fala por si. E termino como comecei, recordando a frase da minha avó: são os pequenos gestos que muitas vezes definem um grande homem.

Rui Luís Lima

quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Brando Mas Pouco - Uma Biografia?

Sempre gostei de ler biografias de actores e cineastas, devido à paixão que tenho pela Sétima Arte e, como todos sabemos, até existem aquelas biografias não autorizadas pelos biografados como é o caso da obra dedicada a Frank Sinatra, intitulada “His Way” escrita por Kitty Kelly e editada no nosso país pela D. Quixote. The Voice, durante largos anos, tudo fez para impedir a publicação e depois por processar a autora. Confesso que li e gostei bastante.

Depois há sempre esse livro de Marion Meade dedicado a Woody Allen, que até à presente data não teve edição nacional com o nome sugestivo “The Unruly Life of Woody Allen” que analisa o famoso cineasta e que me levou a repensar a obra e o seu autor, obrigando-me a uma leitura diferente do cineasta, embora continue a ser um dos meus autores preferidos.

Mais recentemente li a obra que o célebre Donald Spoto dedicou a Audrey Hepburn que adorei, na qual fica bem evidente a magia da escrita deste crítico cinematográfico. Já William Donati na sua obra dedicada a Ida Lupino – "A Biography", deixa-nos decididamente com água na boca, tal o fascínio que emana de cada página e quando terminamos a sua leitura o convite a uma releitura é imediato. O mesmo sucede com “John Cassavetes – Lifeworks” de Tom Charity que comprei em S. Francisco e que foi um verdadeiro convite a mergulhar de novo na obra cinematográfica deste “maverick” do cinema. Poderia continuar a falar de biografias de actores e cineastas que me têm fascinado ao longo da vida (Frank Capra e Orson Welles entre outros), confesso que a lista é longa, mas não posso deixar de referir o trabalho espantoso de Steven Bach sobre essa figura controversa chamada Leni Riefenstahl, que nos oferece uma biografia que se lê de um folego e nos deixa perfeitamente perplexos, ao mesmo tempo que nos convida a tirarmos as nossas próprias conclusões.

Também há aquelas biografias romanceadas de gente famosa, como a “Blonde” da escritora norte-americana Joyce Carol Oates, sobre essa estrela chamada Marilyn Monroe ou o "Notes on the Making of Apocalipse Now" de Eleanor Coppola, uma verdadeira biografia de um filme. Mas o que me trás hoje aqui é a recente biografia que Darwin Porter escreveu sobre esse grande actor do método, chamado Marlon Brando. O livro editado este ano no nosso país chama-se “Brando, Mas Pouco” e oferece-nos um retrato arrepiante do actor. Joyce Carol Oates, no seu livro sobre Marilyn, chama a Brando “o anjo negro”, mas Darwin Porter que durante anos conviveu com as estrelas de Hollywood segundo nos relata no final do livro, oferece-nos ao longo das suas 750 páginas um relato verdadeiramente cruel do actor.

Ao contrário do que esperava, a leitura desta biografia tornou-se verdadeiramente penosa e foi inevitável compará-la com o livro “Canções Que a Minha Mãe Me Ensinou” escrito pelo próprio Marlon Brando e o jornalista Robert Lindsey.
Darwin Porter conversou ao longo de décadas com pessoas que conheceram o actor, desde colegas de profissão, passando por cineastas que o dirigiram, até ao círculo de amigos que com ele conviveu, como refere na nota final de agradecimentos. Mas esta biografia controversa de Marlon Brando, que viu a luz do dia já depois da morte do actor, pretende também dar-nos uma visão do lado nocturno de Hollywood e aqui também falha redondamente, porque ao contrário da fabulosa obra de Otto Friedrich, “City of Nets” / “A Cidade das Redes” (título da edição Brasileira), Darwin Porter optou pelo tom escabroso, vulgarizando o calão como linguagem, ao mesmo tempo que entra numa espécie de cruzada sobre as tendências sexuais do planeta Hollywood, citando nomes que deixam incrédulos o mais comum dos mortais.

Por outro lado a forma como o livro está estruturado deixa-nos perfeitamente espantados. “Apocalipse Now” merece-lhe apenas 15 linhas, informando-nos depois no final do livro que tem material que dava para escrever mais dez livros sobre o actor e que acabou por ficar de fora.

A lista de nomes referidos e a forma como são retratados ao longo das páginas de "Brando Mas Pouco" deixa o leitor surpreendido, mas curiosamente Darwin Porter não nos fala de Jack Nicholson que, como todos sabemos, foi um dos melhores amigos de Marlon Brando.


Todos aqueles que gostam de cinema sabem que Marlon Brando não foi nenhum santo e que a sua vida familiar foi conturbada, ao mesmo tempo que a sua carreira por vezes chegou a ser uma verdadeira montanha russa, mas ler este livro foi na verdade um calvário, pelas diversas repetições de relatos que se encontram ao longo das páginas, ao mesmo tempo que o estilo de escrita adoptado por Darwin Porter torna a leitura de “Brando Mas Pouco” bastante penosa. E quando fechamos o livro, depois dessas nove páginas de agradecimentos do autor, percebemos que terminámos de ler um verdadeiro tratado da chamada má-língua, que na verdade não conseguiu mudar a imagem que tenho desse grande actor chamado Marlon Brando. Se o leitor desejar ler uma biografia de Marlon Brando, recomendamos “Canções Que A Minha Mãe Me Ensinou”, assinada em conjunto por Marlon Brando e Robert Lindsey e depois, como todos sabemos, temos sempre os seus filmes que melhor do que ninguém falam por si!

Rui Luís Lima

quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

O Jazz e a ECM

Comecei a escutar o jazz, ainda miúdo, no célebre programa “Cinco Minutos de Jazz” do José Duarte, então incluído na 23ª Hora com emissão na Rádio Renascença; por ali fui descobrindo os sons e os nomes desse universo que nunca mais deixou a minha companhia. Depois, como não podia deixar de ser, comecei a ir ao Festival de Jazz de Cascais, nessa época em que o Luís Villas-Boas nos oferecia esse fabuloso encontro com esta maravilhosa música, trazendo tantas vezes nomes dos mais sonantes do panorama mundial. Por ali andava, algumas vezes sozinho, outras vezes acompanhado, perfeitamente fascinado com o que via e ouvia, descobrindo essa maravilhosa arte da improvisação, assim como a democraticidade existente entre os músicos.

Comecei então a frequentar a loja do Valentim de Carvalho na Rua Nova do Almada, nessa época em que o cliente da zona de jazz e clássica até podia escolher o disco que pretendia escutar e levá-lo consigo até um dos gira-discos, colocá-lo no prato e ficar a ouvir a música tranquilamente. Descobri alguns intérpretes e compositores através de conversas com o Rui Neves, que por vezes andava por lá. Mas nunca mais me esqueço do dia em que escutei pela primeira vez o “Arbour Zena” do Keith Jarrett. Primeiro fiquei fascinado pela capa do disco da ECM, editora que então desconhecia e, depois, ao escutar aqueles acordes de piano acompanhados por uma orquestra de cordas, mais o contrabaixo do Charlie Haden e o saxofone do Jan Garbarek, percebi que me encontrava no Paraíso. O disco era mais caro do que o habitual, mas depois de contar o dinheiro que tinha no bolso não resisti.

Na semana seguinte fartei-me de falar sobre o disco com os meus amigos de liceu até que, talvez cansados do meu entusiasmo, decidimos ir todos até ao Valentim de Carvalho, para eles ouvirem o Keith Jarrett. Curiosamente, nesse dia, a loja tinha feito uma montra só com discos da editora de Manfred Eicher, ficámos perplexos com o que víamos, pois estávamos perante uma verdadeira exposição. Mal chegámos à cave comecei a procurar os discos para os ver melhor e escutar alguns, descobri um universo até então desconhecido e comecei a fixar os nomes de Ralph Towner, Eberhard Weber, Terje Rypdal, Pat Metheny, Jan Garbarek, entre muitos outros e claro a magia do piano de Keith Jarrett e os seus concertos a solo.

Mais ou menos nessa época o FM do Rádio Clube Português começou a transmitir, por volta das 21h30, uma rubrica de jazz com duração de meia-hora, da responsabilidade do Jorge Lopes (hoje essa voz inconfundível das transmissões do desporto na RTP), em que eram divulgadas precisamente as edições da ECM. Fiquei de tal forma fascinado com o universo que acabara de descobrir que o rock começou a fazer parte do passado. E ainda hoje quando olho para os meus cds, descubro que metade deles pertencem à editora alemã de Manfred Eicher, que um dia nos ensinou que aquele som era o mais belo depois do silêncio, tendo até alguns naquela época catalogado essas sonoridades como jazz de câmara.

Hoje, ao escutar os discos da editora sou de imediato convidado a ser um ouvinte atento e fascinado e são muitas as vezes em que me sento simplesmente no sofá a escutar esta maravilhosa música sentindo simplesmente a passagem do tempo, como se estivesse sentado à beira mar, numa praia deserta a escutar a sinfonia das ondas.
O segredo desta editora reside no cuidado com que Manfred Eicher, também ele músico e cineasta, coloca na produção dos seus discos, oferecendo-nos uma música que se transformou num som único: por ali sentimos a força do jazz e a sua liberdade, mas também a sua melancolia e beleza, ao mesmo tempo que descobrimos não existirem fronteiras entre os seus intérpretes, sejam eles americanos, europeus, árabes ou indianos, assim como a origem dos instrumentos que tocam. A beleza desta música ensina-nos que a harmonia no mundo é possível. Como seria bom, um dia, os homens perceberem que o mundo foi feito para ser amado e não odiado.
Imagem: Capa do disco de Eberhard Weber - "The Colours of Chloe" da autoria de Maja Weber.

Rui Luís Lima

quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Os Livros e o Livreiro


O tema que tinha escolhido para esta semana navegava na área da música mas, após ter conhecimento do encerramento da Livraria Byblos, a maior existente no nosso país, após um ano de actividade, decidi falar um pouco deste universo de que tanto gosto, que são os livros e as livrarias.
Desde tenra idade comecei a frequentar livrarias levado pela minha mãe e avó, ao mesmo tempo que devorava na livraria dos meus padrinhos os célebres livros de banda desenhada, assim como tudo o que apanhava, quando por lá se começaram a vender os livros de bolso, surgidos em finais de sessenta.

A livraria foi um daqueles espaços em que se descobria autores, mas também um lugar em que era possível fazer amizades, incluindo o próprio livreiro, que nos recomendava livros e nos abria os horizontes. Guardo na memória com saudade a Livraria Opinião, dirigida pelo Hipólito Clemente, mesmo ali ao lado da Cervejaria Trindade, hoje pertencente aos Livros Cotovia. Por ali descobri os surrealistas e muito mais, porque as pequenas edições de autor tinham sempre um lugar disponível, para sorrirem ao visitante. Depois eram as descobertas que se faziam sempre em maravilhosas conversas que guardo na memória para sempre, porque quem se encontrava por detrás do balcão tratava os livros por tu e também era um leitor apaixonado.

Hoje, ao entramos numa livraria, quase sempre a resposta é-nos dada pelo computador e a sua famosa base de dados. E a frieza com que somos atendidos muitas vezes, convida-nos a desistir rápidamente de fazer mais alguma pergunta e, claro está, ficamos quase sempre restringidos às novidades editoriais. Os chamados fundos de catálogo não têm direito a habitarem as livrarias, eles dormem sossegados nos Armazéns e só conhecem a luz do dia para conviver com os leitores quando chega a Feira do Livro. Ainda recentemente Alexandra Lucas Coelho se referia a isso numa crónica do jornal “O Público”, a propósito de um livro de E. M. Forster dedicado à famosa cidade de Alexandria, que serviu de inspiração a escritores como Durrell ou Cavafis.

Quando nos apaixonamos pela escrita de um escritor temos o desejo de conhecer a totalidade da sua obra, mas muitas vezes é quase impossível descobrir as edições mais antigas, especialmente se ele for um habitante não dado às famosas novidades e oficialmente faça parte do número daqueles que partiram.
Por outro lado, a chamada crítica literária nos jornais debruça-se principalmente sobre as novidades do mercado, esquecendo-se desses livros que já viram a luz dos dias em anos passados e que se encontram esquecidos, umas vezes nas estantes, outras nos armazéns das editoras. Resta-nos assim essa aventura que se chama Alfarrabistas, onde muitas vezes descobrimos aqueles livros que ouvimos falar aos nossos pais e avós, mas que nunca nos chegaram às mãos e quando finalmente os encontramos meio perdidos nesse sótão dos Alfarrabistas é na verdade o prazer da leitura que ilumina as nossas almas.

Quando entrava na Byblos recordava-me sempre da Barnes & Nobles de Santa Mónica, pelo espaço e pelo número de títulos disponíveis, incluindo os chamados “fundos de catálogo”. Esperamos que o fecho seja provisório e que aquele espaço se mantenha um amigo fiel da literatura. E, como não podia deixar de ser, a memória leva-me a essa época em que a censura existia e os livros eram apreendidos, ainda me lembro desses tempos (início dos anos setenta) em que lia no café “O Dinossauro Excelentíssimo” do José Cardoso Pires com desenhos do Júlio Pomar, devidamente forrado, para ninguém ver a capa ou “Os Subterrâneos da Liberdade” do Jorge Amado, que mão amiga tinha emprestado à minha mãe. Nessa época havia uns agentes especialmente destacados para a apreensão desses livros subversivos, que invadiam as livrarias e tratavam de confiscar essas perigosas armas que são os livros. A maioria das vezes essa acção era concertada, invadindo a policia as livrarias de uma determinada zona/cidade à mesma hora, como tive conhecimento um dia ao debruçar-me sobre os autos de apreensão, no qual figuravam os títulos e quantidades respectivas, ficando o livreiro/editora com uma cópia. Felizmente esses temas fazem parte de um passado já longínquo, mas nunca é demais lembrar a importância que o livro e os escritores possuem, ao oferecerem novos horizontes aos seus leitores.

Ler faz parte da vida e um universo sem livros corresponde inevitavelmente a uma passagem cinzenta por este planeta azul e quando nos lembramos desses copistas da Idade Média que ofereceram o seu labor às gerações vindouras, tantas vezes à luz das velas, queimando a vista para que a cultura não se perdesse, só poderemos olhar os livros com toda a ternura do mundo, fazendo deles o nosso melhor amigo, porque quando regressamos à leitura de um livro amado, estamos perante esse reencontro, que tantas vezes nos transforma o olhar que temos, do mundo em que vivemos.
Imagem: Interior da Livraria City Lights em São Francisco, o mais famoso templo da literatura Beatnick, ao seu lado fica o famoso Café/bar Vesúvio e entre as duas a rua Jack Kerouac, com o famoso mural dedicado a Baudelaire. Uma visita que recomendamos aos apaixonados por Livrarias.

Rui Luís Lima

quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

O Telejornal

Foi nos anos sessenta que a caixa que mudou o mundo deu entrada em minha casa, era um televisor Grundig que durou imenso tempo e nessa época a RTP, que nascera a 7 de Abril de 1957, oferecia-nos entre as séries de origem americana e britânicas, a sua própria produção. Havia também a Noite de Cinema e a Noite de Teatro. Tínhamos os então mais que famosos concertos para jovens de Leonard Bernstein, entre outros programas culturais, para além dos divertidos desenhos animados. Mas o que nos interessa hoje aqui são, na realidade, os telejornais que durante largos anos tiveram a duração de trinta minutos, sempre com o essencial da informação do país e do mundo (como referia então um dos spots), acompanhado sempre pelo boletim meteorológico.

Hoje com quatro canais generalistas, (RTP-1; RTP-2, SIC e TVI) para além da RTPN e SIC Notícias, a informação ocupa uma fatia larga da emissão e nos quatro canais o telejornal, que surge nesse horário nobre das 20 horas, tem sempre para cima de uma hora. Mas o mais curioso é na verdade o alinhamento das notícias, fazemos zapping pelos quatro canais e encontramos quase sempre a mesma notícia ou seja o alinhamento é muito idêntico. Por outro lado, a importância do telejornal levou políticos e dirigentes desportistas a acertarem os seus calendários de acordo com o horário de abertura dos telejornais, para defenderem os seus pontos de vista fazendo, por vezes, dos serviços noticiosos uma verdadeira tribuna.
Mas se sintonizarmos um dos muitos canais noticiosos disponíveis pela televisão por cabo, verificamos que as diversas estações de televisão ainda dedicam ao material noticioso os célebres trinta minutos e ao vermos a forma como essas mesmas notícias nos são apresentadas, ficamos perplexos pela duração e conteúdo dos noticiários nacionais.


É claro que há muito boa gente, da mais anónima até aos que cultivam a visibilidade nas revistas do "chamado jet set", em busca desses 15 minutos de fama de que em tempos falou Andy Wahrol. E por isso mesmo não se pode perder nenhuma oportunidade de aparecer na caixa que mudou o mundo. Quantas vezes saímos do emprego a caminho de casa e encontramos a televisão na rua em busca dessa entidade anónima, intitulada opinião pública, a procurar saber junto dela qual a melhor solução para enfrentar a actual crise económica e ficamos de imediato todos "esclarecidos", nesta aldeia global, como um dia se lhe referiu o visionário Marshall McLuhan.
O mais curioso disto tudo é que parece que se perdeu a noção do poder das imagens porque, como todos sabemos, muitas vezes uma imagem vale mais do que mil palavras. Talvez por isso o canal Arte (franco-alemão) durante largos anos apostou numa formula que nos seduzia fortemente: a apresentação das notícias só com imagens, acompanhadas pela narração do jornalista. Era um trabalho complexo, de uma criatividade e saber, que nos deixava profundamente fascinados pela matéria noticiosa.

Se virmos o serviço noticioso da TV5, por exemplo, encontramos o telejornal perfeito, com o seu pivot a dar-nos em meia-hora o essencial do país (França) e do mundo. Já por cá é-nos oferecido um extenso telejornal, com reportagens muitas vezes demasiado longas, e por vezes dignas de um Tele-Regional, em que temas de muito pouca importância nos são oferecidos na principal emissão noticiosa, no intuito de preencher os habituais 90 minutos da emissão.


Talvez fosse interessante os directores de informação um dia pensarem menos nas audiências e mais numa nova fórmula de apresentar as notícias, conjugando as potencialidades das imagens com o prazer do texto noticioso, criando desta forma o telejornal perfeito, convidando o espectador a um exercício de inteligência, a fim de tirar as suas próprias conclusões sobre a notícia que acabou de conhecer.


PS - Se gosta de cinema e jornalismo, veja o filme de Tim Robbins, "O Candidato", um brilhante exercício cinematográfico sobre esse quarto poder que é a televisão dos nossos dias.



Imagem: Instalação de Nam June Paik

Rui Luís Lima